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terça-feira, 30 de junho de 2015

Estou tão cansada...

Faltavam cinco minutos para as dez horas. A reunião estava marcada para as dez e não queria chegar atrasada. Era a primeira vez que iríamos estar juntas, precisava de causar boa impressão, muito boa impressão mesmo, afinal íamos discutir a dívida grega, não era um encontro para beber café e trocar trivialidades. Mr Mirone deixou-me à  porta e foi estacionar o carro no parque das traseiras. Esperei por ele nervosa. A manhã estava fria e húmida, e o nevoeiro cerrado não dava sinais de se dissipar nas próximas horas.
Mandaram-nos entrar para uma espécie de lagar ou oficina, era um lugar escuro, havia mesas de marceneiro com tornos pesados e, ao fundo, grandes pipas empoeiradas e um cofre de ferro pesado. Senti um arrepio. Olhei-me de alto a baixo. Trazia um vestido de praia cavado, de malha de algodão, que me chegava aos pés. Onde tinha eu a cabeça quando me vesti? Endireitei as costas, encolhi a barriga, ajeitei o cabelo e respirei fundo. Olhei uma última vez à minha volta e vejo-a entrar, majestosa, nas suas vestes senegalesas. O vestido colorido mostrava o seu corpo elegante e deixava à vista os seus ombros esculturais, na cabeça trazia enrolado um pano do mesmo tecido rematado num laço exuberante arquitectonicamente montado e que lhe cobria a totalidade do cabelo.
- Palmier?!!!!!
- Mirone?!!!!!
Nenhuma das duas contava encontrar a outra ali e ficámos verdadeiramente aliviadas. Discutir a dívida grega parecia agora um trabalho muito mais ligeiro. Palmier abriu uma caixa de ferramentas, tirou um corno comprido, aproximou-o da boca e pediu três cafés.
- Ainda bem que és tu, Palmy, fico tão mais aliviada. Enquanto os cafés não chegam posso ir ao carro buscar um casaco que estou gelada? Está mesmo aqui nas traseiras, não demoro dois minutos.
- Sim vai, os cafés ainda demoram uns minutos, gosto do meu café fresco, de grãos acabados de torrar e moer de forma tradicional.
Pedi a chave do carro a Mr. Mirone e deixei-os à conversa. Abri a porta e mergulhei num souk movimentado. Vagueei horas, não conseguia encontrar o estacionamento nem o caminho de volta e tinha tanto frio, sentia a pele dos braços levantada e um nó na garganta, o que seria dos gregos se não conseguisse voltar à reunião?

Acordei gelada. Esta noite escondo o comando do ar condicionado.

16 comentários:

  1. Ahahhahahhahahhahahahhahahaahhahahahahhahahhahahahhahahhahahhahahahhahahahahahahahhahahhahahhahahahahahahhahahahhahahahhahahahahahahahhaahahahhahahahahahhahahahahhahahahahahahahhahahahahhahahahhaah

    Querem lá ver que sou a Lagarde, versão mediterrânica?! :DDDDDDDDDDDDDDDDDDDDD

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    1. Senegalesa mesmo! Quais mediterrâneo, quais quê?

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  2. Muito bom! Sonho agitado hein?

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  3. Ó pá, qd comentei - para provar que não sou um robot - apareceram várias imagens e eu tinha de escolher as que tinham cerveja!
    Ahahaha
    Desculpa não nunca tal me tinha acontecido!

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    1. Não percebo, o blogger agora pede isso, eu nunca pus restrições, mas vá-se lá saber porque ele quer assim.
      (já me tinham falado em hamburguers e sushi, cerveja ainda não).

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  4. Querida Mirone,
    Que texto tão bom. Transportou-me para o universo fotografado por Pablo Ponti.
    Bom dia,
    Outro Ente.

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    1. Mais acima no globo, tem o trabalho de Alain Keohane. "Tropecei"nele em Marrocos e "tive" de trazer duas fotografias.

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  5. Achei logo estranho um vestido de algodão até aos pés, mas julguei que estavas de férias e tinhas sido chamada para estar numa reunião importante.
    Muito bom!
    Andei enganada até ao fim do 2º parágrafo.

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    1. É um sonho recorrente, ter coisas importantes para fazer e perder-me no caminho ou ter imensos contratempos... a psicanálise há-de explicar, eu acho só que são as preocupações do dia-a-dia a quererem ocupar-me também a noite.

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    1. Tenho para mim que o facto de trazer o cabelo todo escondido debaixo do pano não é inocente. Era a minha mente a proteger-me de um choque maior.

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    2. Hahahahahahahahahahahahaha
      A Palmier sempre desgrenhada, e no entanto, nos sonhos, tão bem disfarçada!

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    3. "A Palmier sempre desgrenhada"... Ahahahahahahahah Foge Uva... Fooooge.... Olha que Palmier te lança a Cutxi...

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  7. Por momentos julguei estar a ler as 50 sombras de mirone lol

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