Falam-se línguas (translate)

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Autárquicas e telenovelas

Povo de Sucupira!
É Odorico, o vosso prefeito, que vos fala. Vamos ter uma conversinha sigilenta e reservosa. Deixemos os entretantos e passemos aos finalmentes.

Que é como quem diz, leitores, eu Mirone, me confesso.

Enquanto o país se entretem com os narizes Cutty-Sark e as monocelhas dos candidatos às autarquias do país real, eu recordo com saudade o discurso de campanha do meu autarca corrupto favorito, Odorico Paraguaçu, da novela O Bem Amado, e constato que nunca a reposição desta novela fez tanto sentido. Passa tanta porcaria nas nossas televisões, bem podiam repor este "classicão"!


E que nunca provei licor de geripapo (falha grave!).

PS - O vídeo que faltava

Falam-se línguas

Em Portugal generalizou-se a ideia de que todos temos um Zezé Camarinha dentro de nós, salvo seja, lagarto lagarto lagarto! Não temos literalmente o Zezé Camarinha dentro de nós, que isso é coisa para só se desejar ao nosso pior inimigo (sou da opinião que ao nosso pior inimigo, se o tivermos, podemos desejar tudo, não acredito na converseta "ai não, nem ao meu pior inimigo"). E também não estou a falar do Zezé enquanto galã. Estou a falar do Zezé poliglota, if you "nó uaraimin".
Recebemos turistas todo o ano, vemos filmes e séries não dobradas, temos os tradutores do google e outros que tais, de maneira que, à la Relvas style, nos convencemos de que isso nos dá equivalência ao melhor curso de línguas do mundo inteiro. Ainda que na verdade isso nos dê apenas motivos para não morrermos à fome no estrangeiro (menos mal, de qualquer forma, quando estivermos mesmo, mesmo, mesmo aflitos lá há-de aparecer um português para nos salvar - abençoada Diáspora!), soltarmos umas valentes gargalhadas quando lemos as ementas de certos restaurantes, ou queremos desesperadamente encontrar um buraco fundo para nos escondermos quando ouvimos um governante dizer, numa visita de Estado, "Portugal has wonderful wine, you must prove it". Fiquemos pelo inglês, que o castelhano, "pués" que creemos que es nuestro idioma natural, enrolamos a língua e já está. Não, não é só isso, a não ser que sejamos o Cristiano Ronaldo, a quem tudo - ou quase tudo - permito (a propósito, "Cris, que gafas tan monas!")*.
Tudo isto para dizer que nosso inglês não é tão bom como julgamos, mas não é tão mau que não nos consigamos fazer entender. Vamos acreditar que sim. Quero mesmo acreditar que sim.
Há uns dias abordou-me na rua um senhor com uns documentos do SEF na mão. Penso que me estava a pedir indicações, não percebi muito bem que língua é que estava a falar, talvez wolof. Tentei explicar-lhe, tentei mesmo, em inglês primeiro,  depois com umas palavras de francês, outras de alemão - poucas, com muitos gestos e os olhos muito abertos (como se abrir muito os olhos adiantasse alguma coisa), segue em frente, vira na terceira à direita, sobe a rua e vira à direita  e depois segue uns cinquenta metros e vê o SEF, mas se calhar não eram indicações que ele queria. Ele dizia que não e apontava para os impressos. Acabei por apontar para a praça de táxis, pode ser que algum taxista seja melhor em línguas que eu...


* É um excelente jogador, chegou onde chegou por mérito próprio e com muito esforço, parece-me um miúdo com bom coração (ponham-se no lugar dele, que nasceu pobre, veio para Lisboa ainda garoto, sem família...) e a maneira como gasta o seu dinheiro não me interessa nada.




sábado, 14 de setembro de 2013

"Suponha-mos" ou, mas o que é que isso me interessa?

Queridos leitores, hoje proponho-vos um exercício mental diferente. Vamos brincar aos consultórios sentimentais, uma espécie. Eu apresento-vos uma questão, uma espécie de dilema, que atormenta uma "amiga minha" - que eu não tenho preocupações dessas - e vocês, meus anjos, meus queridos, qual Maya, qual Maria Helena Martins, respondem. Tudo isto no plano dos "suponha-mos" (lê-se "supônha- mos" e não suponhamos).
Então vamos começar:
"Suponha-mos", que a minha amiga foi arranjar os pés porque os calcanhares estavam um bocadinho secos por causa da praia e essas coisas, que eu não faço a mínima ideia do que são, e no dia seguinte tem o almoço do 39.º aniversário de casamento dos sogros.
"Suponha-mos" que os calcanhares da minha amiga ficaram macios como os de um bebé e com a pele fininha que dá gosto.
"Suponha-mos" que, entretanto, a minha amiga viu a luz e decidiu adoptar um estilo de vida mais saudável.
"Suponha-mos" que essa minha amiga detesta ginásios e tem pouquíssima paciência para o pessoal das corridas.
"Suponha-mos" que leu um artigo que diz que caminhar pode ser tão eficaz como correr.
" Suponha-mos" que essa minha amiga até tinha uns ténis todos xpto que numa outra vez, também num momento iluminado, decidiu comprar.
"Suponha-mos" que a minha amiga acordou cedo e decidiu, sem que ninguém se apercebesse, ir fazer uma caminhada matinal.
"Suponha-mos" que até há um percurso à beira rio bem jeitoso, plano, para não cansar muito.
"Suponha-mos" que lá para o sexto kilómetro, dos oito que o percurso tem, a minha amiga começou a sentir uma moínha no calcanhar.
"Suponha-mos" que ignorou a moínha e continuou a andar, porque afinal nem estava muito cansada.
"Suponha-mos" que a minha amiga chegou a casa e viu que tem uma bolha do tamanho de uma moeda de dois euros no calcanhar.
"Suponha-mos" que aquilo lhe está a doer que se farta.
"Suponha-mos" que não consegue usar nada ali (nem tiras de sandálias, muito menos sapatos fechados atrás").
"Suponha-mos" que a minha amiga se vem queixar da sua pouca sorte.
O que é que vocês lhe diziam?
PS - a minha amiga pede-me para vos dizer que os ténis têm o tamanho certo e que usaou meias de algodão e que fez tudo "by the book" e para avisar que nem pensem mandá-la usar havaianas no tal almoço...

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

I fought the law and the law wone

Já vos confessei aqui que por vezes tenho o pé pesado. Não sou nenhum Fittipaldi, como dizia o meu instrutor de condução, mas de vez em quando a coisa proporciona-se e excedo os limites de velocidade.  Um nadinha, tudo controlado. Pensava eu.
É uma irresponsabilidade, bem sei, põe em causa a minha integridade física e, acima de tudo, a integridade física de terceiros, mas quem nunca excedeu os limites de velocidade que atire a primeira pedra, eu mereço. Não ia a 180km/h, nada disso. Ia, num sábado de manhã, a 86 km/h numa estada nacional, numa recta de alguns kilómetros de comprimento e com excelente visibilidade, mas atravessada por uma estrada secundária, o que faz com que na aproximação do cruzamento o limite de velocidade desça dos 80 km/h para os 50 km/h.
- Ninguém passa ali a 50 km/h, é uma injustiça senhor guarda, são 86 km/h, não são 120. 
- Pois, mas é a lei e a placa é bem visível.
É sim, dura lex sed lex e hoje avivaram-me a memória. "sanção acessória de inibição de conduzir por um período de 30 dias suspendendo-se a execução da mesma por um período de 180 dias". 
Ainda se tivesse a "pinta" dos Clash, podia ser que me servisse de consolo. 





É sexta feira

Sim, leitores, é sexta feira. Ora, não têm de quê, eu também gosto que me lembrem essas coisas. O dia da semana, o estado do tempo, se está frio ou calor, esses pequenos detalhes, pormenores que escapam a muita gente. Acredito que não seja uma questão de gostar ou não gostar, é uma questão de necessidade. De outra forma, como poderia eu saber em que dia da semana estamos? Se está a chover ou a fazer sol?
Ainda ninguém se lembrou de me dizer que números vão sair no euromilhões - outra coisa que nunca sei (também vos acontece?), mas se souberem, não se acanhem.
Então pronto, hoje sou eu a lembrar-vos. Já vos tinha dito que dia era no início da semana, agora digo também no fim. 
É sexta feira! Ah, o tempo passa a correr quando fazemos o que gostamos, tudo o que é bom acaba depressa, não é? Não cumprir horários (ficamos sempre mais tempo do que o previsto), aturar os clientes chatinhos, a impressora que decide precisar de tinteiros exactamente no momento em que precisamos de imprimir 927 páginas - ainda hei-de inventar uma impressora que mude os tinteiros sozinha, vou tomar nota no meu caderninho das ideias. Os clientes que pensam que somos o pai Natal e nos pedem tudo e mais alguma coisa. Pai Natal?
Ah! O Natal! Está mesmo aí à porta (para o caso de também precisarem que vos lembrem)! Viva! Viva!

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Arlindo Orlando <3 Sónia Sandra!


Muitos anos depois, e já na companhia de Célio Celso, Sónia Sandra haveria de recordar a noite fria em que Arlindo Orlando a pediu em casamento. Sim, adoro Gabriel Garcia Marquez!
Corria o ano de 2001 e Sónia Sandra acordara naquela madrugada gelada de Janeiro cheia de planos para um dia que se adivinhava longo. Haveria de se fazer à sua querida A1, enfrentar o nevoeiro e o frio para na velha Universidade ter um cansativo dia de aulas, que começaria às nove da manhã para só terminar às seis da tarde. Regressaria depois a Lisboa onde o seu namorado Arlindo Orlando e conservadora família a esperavam para um jantar comemorativo do seu (Arlindo Orlando) aniversário.
O dia adivinhava-se longo, portanto, mas a perspectiva de o terminar nos braços do seu amado assegurava-lhe todas as forças de que precisava. Sónia Sandra era uma jovem mulher feliz!
Como jovem mulher feliz que se sentia, nem o triste episódio do furo daquela manhã, abalava o sentimento de plenitude que a invadia. Nem o facto de, atrasada que chegou, só ter conseguido estacionamento numa ruela estreita, atrás da Faculdade. Nem a omelete gordurosa que comeu num snack-bar ali ao lado, à hora de almoço, e que pagou com as poucas moedas que lhe restavam na carteira (mas onde está uma caixa multibanco quando precisamos dela?). Nem o ardor, primeiro ligeiro, depois mais forte que sentia no olho esquerdo. Sónia Sandra estava feliz, corria-lhe a vida de feição.
No fim das aulas, correu ao WC para trocar de roupa e aprimorar a maquilhagem. Arlindo Orlando reservara mesa num badalado restaurante e Sónia Sandra não queria apresentar-se com os discretos jeans e cara "deslavada" com que comparecera nas aulas. Ademais, queria estrear o vestido preto (Carolina Herrera, se não estou em erro) adquirido recentemente numa promoção irresistível do El Corte Inglés de Vigo (nem uma palavra, é um destino tão válido quanto qualquer outro) na última passagem de ano. Caramba Sónia Sandra, aquilo do vestido preto funciona mesmo. Pareces uma senhora, elegante, sofisticada! Ooops! Uma malha nos collants (Sónia Sandra até podia sentir-se uma senhora sofisticada, mas as suas nádegas não se compadeciam com a aragem fria de Janeiro, por muito sensual que lhe parecesse a ideia de usar meias e cinto de ligas em vez de collants)! Não havia problema, Sónia Sandra, além de jovem mulher feliz era também previdente e levara consigo um par suplente. Collants rotos no lixo, collants novos nas pernas, aproxima-se do espelho para se maquilhar. Oh não! O ligeiro ardor que sentira no olho a meio da manhã e que começava a tornar-se mais incomodativo ao longo do dia era nada mais que uma conjuntivite! Imediatamente tirou as lentes de contacto e pôs os seus óculos. Deu uma cor às maçãs do rosto, passou baton nos lábios e não arriscou sequer uma máscara de pestanas. Nunca tinha tido conjuntivite, mas sabia que não era coisa para se brincar. Usaria os seus óculos pretos, de massa, os únicos suficientemente fortes para suportarem os pirex que usava como lentes (que triste é ser-se míope desde os 10 anos). Sónia Sandra quis acreditar que os óculos lhe conferiam até um certo ar intelectual. Não, não haveria de parecer mal no jantar de aniversário de Arlindo Orlando. 
Confiante e em passo apressado (entre outras habilidades Sónia Sandra era perita em enfrentar calçadas antigas e irregulares de saltos altos), que em Janeiro às seis e meia já é noite, dirige-se ao carro. Novo contratempo. Esquecera-se de recolher os espelhos retrovisores, erro crasso numa rua estreita, já devia saber, e alguém lho tinha partido. Sem medos Sónia Sandra, és uma mulher decidida e independente! Pancadinha daqui, jeitinho dali e o espelho, outrora pendurado por um fio, estava perfeitamente encaixado no lugar de onde nunca deveria ter saído.
Seguia agora tranquila na A1. Dentro de duas horas poderia beijar o seu querido Arlindo Orlando. Logo depois de Condeixa o retrovisor começa a dar sinais da sua frágil condição. Abrandou a velocidade, Ainda estava com tempo. A 120/130 km/hora chegaria bem a tempo do jantar. O abrandamento, porém, não foi suficiente e, na área de serviço de Pombal, teve de sair e voltar a encaixar o espelho. Aguentaria até perto de Leiria, onde voltou a parar para consertar o espelho. Ao chegar a Fátima já o espelho estava novamente pendurado. Tinha de arranjar outra solução. Parou na área de serviço de Santarém. É incrível, no meio de tanta bugiganga à venda nas lojas de conveniência nem um único rolo de fita cola! Mas o espelho não podia seguir pendurado, iria estragar-lhe a pintura do carro, além do perigo que representava. Sónia Sandra teve então uma ideia que, sabendo disparatada, era a única que lhe parecia exequivel. Maldisse-se por ter deixado os collants estragados no cesto do WC da Faculdade. Ter-lhe-iam sido tão úteis. Bonito! Está a pôr-se uma chuva miudinha, era mesmo o que eu precisava para a viagem. O meu cabelo! Estiquei-o esta manhã! Estava tão lisinho. O que tem de ser tem muita força Sónia Sandra! Dirigiu-se ao WC, tirou os collants e improvisou com eles uma amarra para o espelho. Já não mexe! Amanhã logo procuro uma oficina que me encaixe o espelho como deve ser. Agora é prego a fundo que ainda tenho de passar num centro comercial a arranjar meias. 
A restante viagem, efectivamente, correu bem e sem outros sobressaltos. Não foi tão rápida quanto calculou, por causa da chuva, e apesar do ar curioso do portageiro quando o viu, o espelho aguentou-se no seu lugar. Estava a passar o aeroporto quando o telefone toca. Era o seu amado Arlindo Orlando, a saber se ainda demorava, que já só faltava ela, Sónia Sandra. Estou a chegar, estou mesmo a chegar.
"Voou" como pôde até ao restaurante. Rezou para que ninguém reparasse que não trazia meias e com a segurança possível entra no restaurante.
À sua espera, Arlindo Orlando, acompanhado dos pais, irmão, cunhada e avó, recebe-a com um abraço apertado. Sónia Sandra era novamente uma jovem mulher feliz.
- Agora que chegaste, meu amor, e aproveitando o facto de ter a família comigo, quero dizer que és a mulher mais bonita que já vi e que o maior presente que me podias dar neste aniversário é aceitares passar o resto da tua vida a meu lado.

E foi assim que Sónia Sandra, sem meias, de cabelo frisado, óculos com lentes de fundo de garrafa e olho de goraz com uma semana fora do frigorífico, soube que era junto de Arlindo Orlando que queria envelhecer, com os Igor Romeu e Petra Priscila que Deus lhes quisesse dar.



quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Bastardo?!

Leitores, chamem-me tudo, mas ainda estou de boca aberta com o que acabei de ouvir que tive de vir aqui contar. Eu sei que é, muito provavelmente, um preciosismo meu, a palavra existe, goste ou não dela, mas soou-me tão mal.
Esta tarde, quando fui buscar a Mironinho, dei com esta conversa:
- Olá! Entãoooo?! Sempre conseguiste vaga para a Luisinha, que bom!
- Pois, consegui. Dá-me tanto jeito!
- Então a Luisinha deve ser da turma do Francisco, filho do Rui.
- Filho do Rui?
- Sim, um bastardo, que ele teve já depois de estar com a Paula...

Bastardo? Em 2013, senhoras?