Não gosto nada deste tipo de chavões, "ao que isto chegou", "é o país que temos", mas neste momento não me ocorre mais nada.
Bom, até me ocorre. Podia citar Charles Dickens, em A Tale of Two Cities e dizer "It was the best of times, it was the worst of times.". Naturalmente, daria especial ênfase à parte do "worst of times", mas depois haveriam de achar que era uma grandessíssima pedante, a armar ao pingarelho. De qualquer maneira, o que se passou e que aqui deixo em forma de desabafo, não merece Dickens. Por mim, ficará com um "ao que isto chegou".
Nestes últimos dias tenho partilhado no blog episódios que, nada tendo de extraordinário, saem da rotina e por isso lhes dou destaque. Já mais que uma vez recebi comentários do género "mas onde é que andas?", "é no que dá viver em sítios pobres". Tinha para mim que eram episódios pontuais, excepções, que não senhora, moro e trabalho em locais seguros e, em regra, não frequento por zonas problemáticas. Mas hoje sou obrigada a dar a mão á palmatória. Vivo na selva, estou entregue à bicharada. Ao que isto chegou, senhores leitores!
Pois que no meu prédio há vizinhos com elevado sentido de estética que, suponho (se calhar os motivos são outros, quem sabe, preguiça de ir aos correios, duas portas ao lado, pedi-lo), não querendo perturbar a linha arquitectónica da fachada, optaram por não colocar nas caixas do correio o autocolante amarelo "publicidade não endereçada, aqui não". Contudo, não gostando também de publicidade não endereçada, suponho também que têm vidas muitíssimo atarefadas que não lhes permite fazer a selecção do correio no recato do lar e optam por fazê-lo no hall do prédio. Por isso, em reunião de condomínio, a maioria dos proprietários decidiu que se adquiriria uma papeleira, onde as pessoas que não querem colocar o tal autocolante, possam deixar os mil e um catálogos que diariamente lhes chegam à caixa de correio.
Escusado será dizer que nunca a linha arquitectónica do hall do prédio foi tão valorizada. Na verdade, pondero propor à assembleia de condóminos a redenominação e afectação da utilização do hall como galeria de arte . Num prédio onde a limpeza (e consequente esvaziamento da papeleira) é feita duas vezes por semana é maravilhoso dar de caras com semelhante instalação sempre que se entra no prédio. É uma obra colectiva e penso que se chama "papeleira a abarrotar". Devo estar a maçar-vos com este discurso sobre arte. Bem sei, não é assunto para todos. Adiante.
A minha tristeza, a minha revolta, aquilo que me deixa sem palavras senão "ao que isto chegou", foi constatar que esta semana roubaram a papeleira. Uma papeleira?! Quem é que rouba uma papeleira?! Que gente é esta? Que tempos são estes?
Ao que isto chegou! É o país que temos!
Bom, a condição de galeria de arte mantém-se. A nova instalação chama-se "Amontoado de panfletos publicitários no cantinho junto às caixas de correio".
