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segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Se tu visses o que eu vi, fugias como eu fugi (e rias como agora estou a rir)

Tenho ideia de que todas as cidades têm o seu "maluquinho" de serviço. Se calhar, para não ferir susceptibilidades, devia chamar-lhes cidadãos portadores de doença mental e/ou déficit cognitivo. Normalmente são inofensivos, mais ou menos educados, e alguns, de certa forma, chegam a ser "acarinhados" por quem se habitua a vê-los. Estou a lembrar-me, por exemplo, do "Emplastro" do Porto, acho que se chama Fernando, desculpem-me, não sei o nome.
Mas eu, Mirone, morro de medo destes maluquinhos. Morro mesmo. Falta-me o ar, o coração dispara, foge-me o chão. Clinicamente suponho que os encontros com maluquinhos me deixem à beira de um ataque de pânico. Por isso, sempre que me cruzo com um faço um esforço tremendo para racionalizar "calma Mirone, ele não te vai fazer mal, não olhes, finge que não ouves, finge que não vês, segue a tua vida que ele seguirá a sua". E tem corrido bem.
Acho que fiquei assim quando, há uns 10 anos, me entrou um maluco no carro. Tinha ido deixar o meu irmão ao terminal da rodoviária e, enquanto ele sai por uma porta, o maluco entrou pela outra. "Leva-me ao shopping". O homem fedia, é só do que me lembro! Eu tremia como varas verdes e não conseguia articular uma palavra, apesar de já o conhecer "de vista" e saber que era inofensivo, uma criança em ponto grande. "Leva-me ao shopping... vá lá, faz favor" choramingava. E agora o que é que eu faço? Pensa Mirone, pensa! Tive ali morte cerebral, de certeza, porque não pensei e fiz o que fiz. Eu não vos digo que morro? Levei-o quase até ao shoping (era próximo e ficava no meu caminho). Pedi-lhe que saísse e ele saiu. Agora penso que se lhe tivesse pedido que saísse logo no terminal, teria saído, mas nunca o saberei.
Hoje, a coisa não foi melhor. Ou melhor, foi pior. Encontrei outro maluquinho. Já deve ser velhote, lembro-me de o ver desde quase sempre. A "pancada" deste é ser sinaleiro. Normalmente anda por dois ou três cruzamentos a orientar o trânsito.
Acontece que hoje tive de ir à Junta de Freguesia que fica, precisamente, junto a um cruzamento por onde ele costuma parar. "Calma Mirone, segue, finge que não o vês, finge que não o ouves". Ele esbracejava, gritava "Avance, avance! Páre, páre!" aos carros que passavam. Estava no passeio oposto ao meu, tudo pacífico, portanto. Só que quando eu vinha a sair, vejo-o a gritar "Uou! Uou!", a mandar parar os carros e a atrevessar a estrada a correr, na minha direcção. Pronto, é desta Mirone, ele vai atacar-te, já foste! O que é que eu faço? Não me posso defender. Ele é velhote, com os nervos com que estou, sou capaz de lhe dar uma sova tão grande que o deixo estendido (que uma pessoa "com os nervos" vai buscar forças não sabe bem onde). Eu não quero ir para a prisão por causa de um maluquinho. Não quero ir para a prisão. Por motivo nenhum. Ponto final. O que é que eu faço?
Grito de medo e começo a correr também, na direcção do estacionamento. E quanto mais eu corria, mais ele corria, mais ele gritava. "Uou! Uou! Tá a ouvir?". E eu gritava também. E corria! Chego ao carro. Agora a chave? Onde é que está a chave! E ele grita mais. Vai alcançar-me antes de eu entrar e me trancar lá dentro. Pronto Mirone. É o fim! Adeus mundo...
Uou! Uou! Tá a ouvir? Diga-me uma coisa. Estava lá o Presidente? Ainda não o vi hoje, e o carro dele também não está cá.
Todas as cidades têm o seu maluquinho de serviço. A minha, hoje, teve dois!