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quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Arlindo Orlando <3 Sónia Sandra!


Muitos anos depois, e já na companhia de Célio Celso, Sónia Sandra haveria de recordar a noite fria em que Arlindo Orlando a pediu em casamento. Sim, adoro Gabriel Garcia Marquez!
Corria o ano de 2001 e Sónia Sandra acordara naquela madrugada gelada de Janeiro cheia de planos para um dia que se adivinhava longo. Haveria de se fazer à sua querida A1, enfrentar o nevoeiro e o frio para na velha Universidade ter um cansativo dia de aulas, que começaria às nove da manhã para só terminar às seis da tarde. Regressaria depois a Lisboa onde o seu namorado Arlindo Orlando e conservadora família a esperavam para um jantar comemorativo do seu (Arlindo Orlando) aniversário.
O dia adivinhava-se longo, portanto, mas a perspectiva de o terminar nos braços do seu amado assegurava-lhe todas as forças de que precisava. Sónia Sandra era uma jovem mulher feliz!
Como jovem mulher feliz que se sentia, nem o triste episódio do furo daquela manhã, abalava o sentimento de plenitude que a invadia. Nem o facto de, atrasada que chegou, só ter conseguido estacionamento numa ruela estreita, atrás da Faculdade. Nem a omelete gordurosa que comeu num snack-bar ali ao lado, à hora de almoço, e que pagou com as poucas moedas que lhe restavam na carteira (mas onde está uma caixa multibanco quando precisamos dela?). Nem o ardor, primeiro ligeiro, depois mais forte que sentia no olho esquerdo. Sónia Sandra estava feliz, corria-lhe a vida de feição.
No fim das aulas, correu ao WC para trocar de roupa e aprimorar a maquilhagem. Arlindo Orlando reservara mesa num badalado restaurante e Sónia Sandra não queria apresentar-se com os discretos jeans e cara "deslavada" com que comparecera nas aulas. Ademais, queria estrear o vestido preto (Carolina Herrera, se não estou em erro) adquirido recentemente numa promoção irresistível do El Corte Inglés de Vigo (nem uma palavra, é um destino tão válido quanto qualquer outro) na última passagem de ano. Caramba Sónia Sandra, aquilo do vestido preto funciona mesmo. Pareces uma senhora, elegante, sofisticada! Ooops! Uma malha nos collants (Sónia Sandra até podia sentir-se uma senhora sofisticada, mas as suas nádegas não se compadeciam com a aragem fria de Janeiro, por muito sensual que lhe parecesse a ideia de usar meias e cinto de ligas em vez de collants)! Não havia problema, Sónia Sandra, além de jovem mulher feliz era também previdente e levara consigo um par suplente. Collants rotos no lixo, collants novos nas pernas, aproxima-se do espelho para se maquilhar. Oh não! O ligeiro ardor que sentira no olho a meio da manhã e que começava a tornar-se mais incomodativo ao longo do dia era nada mais que uma conjuntivite! Imediatamente tirou as lentes de contacto e pôs os seus óculos. Deu uma cor às maçãs do rosto, passou baton nos lábios e não arriscou sequer uma máscara de pestanas. Nunca tinha tido conjuntivite, mas sabia que não era coisa para se brincar. Usaria os seus óculos pretos, de massa, os únicos suficientemente fortes para suportarem os pirex que usava como lentes (que triste é ser-se míope desde os 10 anos). Sónia Sandra quis acreditar que os óculos lhe conferiam até um certo ar intelectual. Não, não haveria de parecer mal no jantar de aniversário de Arlindo Orlando. 
Confiante e em passo apressado (entre outras habilidades Sónia Sandra era perita em enfrentar calçadas antigas e irregulares de saltos altos), que em Janeiro às seis e meia já é noite, dirige-se ao carro. Novo contratempo. Esquecera-se de recolher os espelhos retrovisores, erro crasso numa rua estreita, já devia saber, e alguém lho tinha partido. Sem medos Sónia Sandra, és uma mulher decidida e independente! Pancadinha daqui, jeitinho dali e o espelho, outrora pendurado por um fio, estava perfeitamente encaixado no lugar de onde nunca deveria ter saído.
Seguia agora tranquila na A1. Dentro de duas horas poderia beijar o seu querido Arlindo Orlando. Logo depois de Condeixa o retrovisor começa a dar sinais da sua frágil condição. Abrandou a velocidade, Ainda estava com tempo. A 120/130 km/hora chegaria bem a tempo do jantar. O abrandamento, porém, não foi suficiente e, na área de serviço de Pombal, teve de sair e voltar a encaixar o espelho. Aguentaria até perto de Leiria, onde voltou a parar para consertar o espelho. Ao chegar a Fátima já o espelho estava novamente pendurado. Tinha de arranjar outra solução. Parou na área de serviço de Santarém. É incrível, no meio de tanta bugiganga à venda nas lojas de conveniência nem um único rolo de fita cola! Mas o espelho não podia seguir pendurado, iria estragar-lhe a pintura do carro, além do perigo que representava. Sónia Sandra teve então uma ideia que, sabendo disparatada, era a única que lhe parecia exequivel. Maldisse-se por ter deixado os collants estragados no cesto do WC da Faculdade. Ter-lhe-iam sido tão úteis. Bonito! Está a pôr-se uma chuva miudinha, era mesmo o que eu precisava para a viagem. O meu cabelo! Estiquei-o esta manhã! Estava tão lisinho. O que tem de ser tem muita força Sónia Sandra! Dirigiu-se ao WC, tirou os collants e improvisou com eles uma amarra para o espelho. Já não mexe! Amanhã logo procuro uma oficina que me encaixe o espelho como deve ser. Agora é prego a fundo que ainda tenho de passar num centro comercial a arranjar meias. 
A restante viagem, efectivamente, correu bem e sem outros sobressaltos. Não foi tão rápida quanto calculou, por causa da chuva, e apesar do ar curioso do portageiro quando o viu, o espelho aguentou-se no seu lugar. Estava a passar o aeroporto quando o telefone toca. Era o seu amado Arlindo Orlando, a saber se ainda demorava, que já só faltava ela, Sónia Sandra. Estou a chegar, estou mesmo a chegar.
"Voou" como pôde até ao restaurante. Rezou para que ninguém reparasse que não trazia meias e com a segurança possível entra no restaurante.
À sua espera, Arlindo Orlando, acompanhado dos pais, irmão, cunhada e avó, recebe-a com um abraço apertado. Sónia Sandra era novamente uma jovem mulher feliz.
- Agora que chegaste, meu amor, e aproveitando o facto de ter a família comigo, quero dizer que és a mulher mais bonita que já vi e que o maior presente que me podias dar neste aniversário é aceitares passar o resto da tua vida a meu lado.

E foi assim que Sónia Sandra, sem meias, de cabelo frisado, óculos com lentes de fundo de garrafa e olho de goraz com uma semana fora do frigorífico, soube que era junto de Arlindo Orlando que queria envelhecer, com os Igor Romeu e Petra Priscila que Deus lhes quisesse dar.



quinta-feira, 25 de julho de 2013

Encontros calientes na A1

Ontem, em jeito de balanço, antes de me deitar fui espreitar as estatísticas do blog. Sim, eu sei, a conversa dos russos já enjoa. Mas não foi isso que fui ver. Ontem quis saber o que vos traz aqui. Procurei as palavras-chave mais usadas e lá estavam as esperadas mirone, blog do mirone, mirone blogs, taradas e, pasme-se, encontros gay nas estações de serviço A1. Uma pessoa chegou até este blog quando procurava encontros gay nas estações de serviço da A1.
Se vinha à procura de informação detalhada, sinto que o desiludi. Aquele episódio de que vos falei há uns tempos não foi um encontro gay e, tendo ocorrido numa estação de serviço da A1, podia muito bem ter ocorrido num outro local qualquer. Sim, desiludi, mas quero corrigir o erro.
Assim sendo, servirá este post para partilhar a informação que possuo sobre o tema. É pouca, bem sei, mas é segura, passou-se comigo, não se baseia num qualquer "diz que disse".
Aconteceu há pouco tempo, dois meses, nem tanto. Numa viagem de trabalho, estando com as horas contadas, ligaram-me do escritório a dizer que precisavam que levasse uns documentos importantes e que alguém iria ao meu encontro na estação de serviço mais próxima do local onde me encontrava para mos entregar. Assim, sempre pouparia metade do tempo, quando comparado com o tempo que perderia voltando atrás e fazendo todo o percurso novamente.
Parei o carro numa zona de descanso, um estacionamento debaixo de umas árvores com duas mesas de piquenique, casas de banho e cabines de duche. Havia dois camiões TIR estacionados, de cortinas corridas, a descansar certamente, e um carro comercial, parados à sombra. Tinha parado uns kilómetros atrás para beber café, porque é que não se lembraram dos documentos uns minutos antes? Sem nada que fazer pego no telemóvel para me entreter. Vejo o mail, nada de especial, exploro as definições, deixa-me configurar o bluetooth, que nunca vi isto... 
Bluetooth activado, a procurar ligações... Oh diabo! "Homemprocurahomem", "gaycaliente"?! Que é isto?! Eu já tinha ouvido falar em encontros gay nas  auto-estradas, mas uma coisa é ouvir, outra é ver.
Quanta ignorância Mirone! Onde é que tu vives? E em que século? Então não vês que é assim que eles se reconhecem? Param numa zona de descanso e, encontrando alguém com os mesmos interesses trocam umas mensagens e está feito.
Tranquei-me no carro, desliguei o bluetooth e pedi a todos os santinhos que não demorassem muito a trazer os documentos.
Assim, caro curioso que procurou no Mirone dicas para encontros gay na A1, espero que esta informação se revele útil.

Mirone, a servir os leitores desde Junho de 2013.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Sair do armário (ou o dia em que deixei parte da dignidadde numa estação de serviço da A1)

Toda a gente teve na vida um momento de fraqueza a ensombrar uma relação perfeita, não digam que não. Todos passámos, pelo menos uma vez na vida, por uma prova de fogo. Toda a gente, de certeza. Simplesmente há quem na fraqueza consiga encontrar forças para não cair. Eu Mirone me confesso, já tive os meus momentos de fraqueza, mas há um que recordo com especial vergonha.
Corria o ano de 2000. Tinha acabado o curso há poucos meses e estava a fazer um complemento de formação obrigatória que implicava uma deslocação diária de cerca de 160 km, durante alguns meses. A opção mais lógica e economicamente mais sensata foi dividir boleias com um grupo de colegas, sendo que em cada semana um de nós levaria o seu carro suportando os respectivos custos (pareceu-nos mais prático do que estar a fazer diariamente as contas a combustíveis e portagens).
Inicialmente eramos cinco colegas. Depois houve um que desistiu  e duas que optaram por alugar um quarto e ficar durante toda a semana. Ao fim de dois meses eramos só nós os dois a fazer a dita viagem diária. Durante aqueles meses conversámos sobre tudo, desde os assuntos mais corriqueiros como cinema ou música (um dia  hei-de contar-vos como deixei a outra parte da minha dignidade no porta luvas de um Volkswagen Polo), aos mais profundos e íntimos desejos. Gostavamos verdadeiramente da companhia um do outro. E o que parecia ser uma relação de amizade pura, caminhou, não sei como nem quando para um flirt cada vez menos flirt (se é que me faço entender), ao ponto de me fazer pensar "Olá, mas o que é isto que temos aqui? Queres ver que o interesse é mútuo? Mirone, Mirone, tu não te desgraces. Tens um namoro de 6 anos. Imagina que era ao contrário, não ias gostar". Pensava, pensava, mas a verdade é que nunca passei dos pensamentos à acção. Até ao dia...
Pois é, o curso acabou e, naquela noite quente de Julho fizemos aquela que seria a nossa última viagem de regresso. Era a minha semana de levar o carro (impecavelmente limpo e aspirado, que uma pessoa gosta de impressionar sempre que pode).
Mal entrámos na auto-estrada sinto a sua mão na minha.
- Podemos parar na próxima estação de serviço? Tenho uma coisa muito importante para te dizer.
- Importante? (Calma Mirone, calma! Pode não ser nada disso.)
- Sim, muito importante. E como sei que provavelmente nunca mais nos vamos ver tenho mesmo de te dizer, senão rebento. Não tenho pensado noutra coisa nos últimos tempos, anda a consumir-me por dentro...
 "E eu a querer consumir-te por fora", pensei. " Mirone Mirone, onde te vais meter. Tira daí as ideias, ganha juízo, não deites tudo a perder".
 - Estes meses foram muito importantes para mim, nunca me senti tão à vontade com ninguém como me sinto contigo...
"Que se lixe, nunca mais nos vamos ver, ninguém vai saber, seja o que Deus quiser". Parei o carro, tirei o cinto e olhei-lhe nos olhos.
- Sabes Mirone, eu sei que para muitos isto é errado, mas eu não consigo mais fingir uma coisa quando o meu coração me diz outra.
"É agora Mirone, é agora, avança! Isto é como o outro cantava, tu estás livre e eu estou livre e há uma noite por passar". 
Acaricio-lhe o rosto, aproximo-me perigosamente da sua boca.
- Deixa-me dizer-te, senão perco a coragem.
- Não é preciso, já sei o que me queres dizer. Não estejas assim...
- Vou assumir-me! Sou gay. Pronto era isto.
Abraçamo-nos em silêncio. Ligo o carro. A estação de serviço fica para trás e com ela grande parte da minha dignidade.