O Ministro Centeno apresentará o plano de reestruturação da Caixa Geral de Depósitos esta tarde, pelas 15h30m.
Não podia ter escolhido melhor hora, a seguir vai dar o jogo da selecção, com sorte Portugal passa à fase seguinte, arranja-se assunto por mais uma semana e não se fala mais da CGD.
Falam-se línguas (translate)
quarta-feira, 22 de junho de 2016
terça-feira, 21 de junho de 2016
Esclareçam-me só umas dúvidas, por favor
Os jogadores da selecção nacional, excluindo os contratos publicitários, são pagos por a representarem em competições internacionais?
Esse pagamento, partindo do princípio que existe, é igual para todos?
Agradecida.
Esse pagamento, partindo do princípio que existe, é igual para todos?
Agradecida.
domingo, 19 de junho de 2016
sexta-feira, 17 de junho de 2016
quarta-feira, 15 de junho de 2016
terça-feira, 14 de junho de 2016
O Irrigador*
Para lá do tanque de pedra do pomar, depois de passar as tangerineiras, havia junto da eira O Barracão. N'O Barracão, que não era mais do que um depósito de velharias com um cantinho reservado à Oficina, uma mesa de marceneiro que nunca me lembro de ter visto ser usada e umas quantas prateleiras de tábua corrida onde o avô guardava ferramentas variadas, sobretudo as alfaias de resineiro que um dia foram do seu avô, os púcaros de barro que levávamos para fazer papas de terra com que banqueteávamos as Tuchas e os Carecas, alinhavam-se três gerações de bicicletas enferrujadas, um tear desmantelado, louças lascadas, candeeiros de petróleo, cabeceiras de camas de ferro, lavatórios de esmalte, cadeiras desirmanadas com estofos gastos e pernas bambas, uma máquina de costura, caixotes de todos os tamanhos e móveis velhos, onde procurávamos tesouros que depois, se a avó deixasse - deixava quase sempre -, usávamos para brincar. Partimos pratos, demos descaminho a tachos e panelas, arrancámos portas para fazer casinhas para as bonecas. Existia contudo um móvel onde não mexíamos, uma mesinha de cabeceira de madeira escura, sem gaveta, com um tampo de pedra branca partida e uma única porta que guardava, além d'O vaso de noite branco com uns morangueiros pintados que tantos risinhos abafados nos causava na ninhada de netos entre os quatro e os nove anos, não tanto pela função que desempenhava, mas sobretudo pelo eufemismo com que a avó o designava, coberto por um pano de linho bordado, um fascinante artefacto de vidro com uma base de ferro encarnada decorada com flores douradas já muito sumidas, com um tubo de borracha castanha que terminava numa torneirinha de baquelite preta. Avó, e o extintor, podemos brincar com o extintor? Nós temos cuidado, pode ser? Não! estávamos terminantemente proibidos de brincar com O vaso de noite, muito menos com O Irrigador, o que quer que fosse!, e nessa tarde não pudemos brincar mais n'O Barracão. No dia seguinte, quando voltámos, a mesinha de cabeceira tinha desaparecido e com ela o penico dos morangos e o "extintor", sem que alguma vez percebêssemos porquê e para que servia, perdendo-se para sempre no fundo das nossas memórias. Longe da vista, longe do coração. Ou não.
Há uns dias, numa dessas feiras de velharias que enchem as pracetas das vilas pequenas no segundo domingo de cada mês, em cima de um pano verde estendido no chão, entre bricabraque de toda a sorte, a mesma base de ferro encarnado, o vidro fino e a mangueira de borracha. Lembrei-me d'O Barracão e da mesinha e do vaso de noite e pude, finalmente, perguntar para que servia o estranho "extintor". Ahahahahahahahah! Extintor?! Essa é boa, nunca lhe tinha ouvido chamar extintor, mas olhe que não anda lá longe. Ahahahahah! É um irrigador, minha senhora, servia para dar clisteres.
* Ou de como o lugar de alguns objectos é guardado a sete chaves, dentro de uma mesinha de cabeceira fechada num barracão e, sobretudo, na nossa memória, sob pena de perderem toda a sua beleza.
segunda-feira, 13 de junho de 2016
Tó
Estica o indicador e o médio debaixo do fio fino de água gelada que corre para a pia de esmalte onde o tempo e o ferro gravaram uma risca castanha e sacode-os vigorosamente antes de os passar nas pálpebras para lavar as remelas da noite, espalha a espuma de barbear no rosto magro e desfaz a barba com uma lâmina descartável que lhe trazem em sacos de dez as meninas do centro social quando vêm deixar a comida e lavar a mãe, que há quase um ano espera a morte e estado vegetativo. No fim limpa-se com uma toalha velha que pendura num gancho que pregou na porta e despeja after-shave nas mãos que espalha com palmadas no rosto, pescoço e debaixo dos braços. Teria três anos quando caiu no charco dos patos e nunca mais conseguiu sentir água na cara, falta-me logo o ar, afogo-me. Molha os dentes de um pente de plástico azul para modelar a madeixa de cabelo que deixa crescer até ao ombro esquerdo sobre a careca luzidia. Depois veste o fato castanho muito coçado e lustroso que um vizinho lhe deu, aperta a gravata debaixo do colarinho gasto e passa uma escova pelos sapatos, para ter a certeza que brilham.
Aproxima-se cerimoniosamente e em silêncio da cama da mãe, endireita-lhe a cabeça na almofada, estica o tubo do oxigénio, puxa a roupa da cama para cima e ajeita a dobra do lençol sobre o cobertor. Segura-lhe nos braços moles e tenta fixar-lhe as mãos como que em oração sobre o peito, sem êxito, e volta a estendê-los ao longo do corpo, por cima da roupa, afasta-se para a mirar melhor e volta a consertar a almofada. Estica a roupa da cama uma última vez, simula que lhe fecha as pálpebras, acena afirmativamente com a cabeça como quem se congratula e esboça um sorriso de satisfação antes de se pôr de plantão à janela, de olhos fixos no fundo da rua, à espera da carrinha branca das meninas que chegando à hora do costume lhe parecem mais demoradas naquela manhã.
- Já são oito e meia?
- Bom dia, Tó, estás todo janota, onde é a ida com tanta pressa, nem comes?
- Começo hoje no Xico da funerária e ele disse que me vinha buscar às oito e meia. Diz que se eu for atinadinho um dia me vai ensinar a preparar os corpos, hoje até já estive a praticar com a mãe.
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