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segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Dejá vu

Acabou de me acontecer, leitores, mais uma vez. Mirone, a participar em vexames em público desde... sempre?
Corria o ano de 2011, se não estou em erro, e o Palácio das Galveias acolhia uma exposição sobre instrumentos de tortura medievais (tenho cá para mim que foi aqui que o nosso ex-primeiro se inspirou para escrever a sua teses de mestrado).
Era sábado de manhã e o casal Mirone entendeu que seria uma belíssima forma de abrir o apetite para o almoço. Sala atrás de sala lá estavam elas, das mais imaginativas  máquinas de empalamento, aos simples alicates de arrancar unhas, dos quebadores de joelhos aos singelos garrotes, a arrancar esgares e arrepios aos visitantes. A certa altura, um casal que seguia à nossa frente protagoniza o episódio do dia.
Sem que ninguém esperasse, pelo menos sem que o esperássemos, o senhor cai redondo no chão. Ela desesperada, ajoelha-se e começa a gritar enquanto o sacode violentamente:
- Fernando, Fernando! Fernando, acorda! Socorro, ajudem! O meu marido está a sentir-se mal!
E o que é que o casal Mirone faz? Assume a sua condição em plenitude. Recua dois passos, cruza os braços e comenta entre si:
- Sabias que isto tinha um espectáculo associado? 
- Sim senhor, por acaso até é uma ideia gira, resulta. E olha que não vão nada mal. Muito realista, até.  esta nova geração de actores até se safa. Infelizmente não têm as oportunidades que deviam...
De joelhos, lavada em lágrimas, a senhora gritava:
- Fernando, Fernando! Ajudem!
E vira-se para nós, capaz de nos comer vivos (que apropriado, já que falamos de tortura) e ordena:
- Mexam-se! Pelo amor de Deus! Não fiquem aí parados, chamem o INEM!
Só então caiu a ficha. Afinal não era uma representação, era real e o Fernando precisava efectivamente de ajuda. Entretanto o segurança já lhe estava a aplicar manobras de primeiros socorros e reanimação e  Fernando retomava a consciência.
Aparentemente, impressionado com os instrumentos expostos, tinha tido uma quebra de tensão que originou o desmaio.
Depois de pedir mil perdões ao casal, de lhe explicarmos que julgávamos tratar-se de uma encenação, saímos de fininho com vontade de nos enfiarmos num buraco.
Hoje a história repetiu-se. Mas tenho a memória fresca e desta vez estava preparada.
Tomava eu o meu café antes de começar a trabalhar, quando um casal de adolescentes se senta na mesa ao lado da minha. Sorrisinho daqui, cochicho de acolá, tudo corria bem até que ele cai sonoramente sobre a mesa, inanimado. Pummm!
Num salto, viro-me para a rapariga que estava com ele e digo com voz firme ( quero acreditar que foi com voz firme, que não gritei):
- Calma, não se assuste! D. Creuza, ligue para o INEM, por favor!
- Oi? Quer o quê? - pergunta a dona Creuza.
Do outro lado, duas sonoras gargalhadas.
- Não é preciso, era uma brincadeira! Está tudo bem. Nem pensei que fizesse tanto barulho...
Mais uma vez, o sangue a subir-me o corpo e a tomar-me a face.  Novamente a vontade de enfiar a cabeça num buraco.

Definitivamente, não dou para samaritana!